ABRAHAM SHAPIRO
No início do ano, o costume e a
boa educação ensinam que desejemos "Feliz Ano Novo". Felicidade é o pensamento
e voto mais frequentes desta época.
O que é preciso para se ter um ano
novo feliz? Uma porção de coisas, na visão das pessoas. Mas se tudo deve começar
pelo conceito, fica difícil entender, pois, mal sabemos o que é a felicidade!
Aliás, defini-la é quase impossível. Talvez um modo prático seja através de sua
ausência ou por sua negação.
Permita-me fazer algumas
tentativas. Comecemos pensando que felicidade não é possuir coisas. A sociedade
está contaminada pelo sentimento de competição no quesito “ter”. Quanto mais se
tem, melhor é. Quanto maior e mais cara é a posse, mais elevada é a posição de
destaque de quem a possui!
Contudo, a felicidade não acontece
quando se vive numa mansão em condomínio de luxo, com carros importados, joias e
roupas finas em seu interior. Alguém já disse que “quem aumenta suas posses,
multiplica suas preocupações". Dois automóveis não traz o dobro da felicidade
sobre quem tem um só.
Felicidade também não é diversão.
Quem se sente infeliz e investe numa longa viagem até um lugar paradisíaco na
esperança de encontrá-la, irá se decepcionar. Ao chegar lá - seja ao Caribe, à
Disney ou a Praga -, verá que os sentimentos que originaram sua infelicidade
poderão até estar em segundo plano, mas então na bagagem. E ao retornar, os
encontrará à soleira da porta de casa, dando boas-vindas.
Felicidade tampouco provém de
prestígio, sucesso ou fama. Os milionários e famosos mais disputados pelo
populacho são ou foram ícones da suprema infelicidade. Alguns se entregaram às
drogas, à bebida ou a uma vida abjeta. Quantos não se suicidaram quando
chegaram ao “topo do mundo”? Elvis Presley, Marilyn Monroe, Michael Jackson.
Não vou prosseguir nisso. Já
sabemos o que a felicidade não é.
Mas a pergunta de um milhão de
dólares é: “O que fazer para que o Ano Novo seja feliz?”
Darei algumas
sugestões.
Comecemos por algo aparentemente
absurdo: “Pare de correr atrás da felicidade”. Ela é muito estranha: quanto mais
a buscamos, mais foge da nossa capacidade de alcance. Buscá-la é absolutamente
inútil.
Não há nada errado em querer ser
feliz. O problema está na ideia fixa de que temos de ser felizes a qualquer
custo. Todos temos direito à felicidade. Mas geralmente o que imaginamos pode
ser um sonho inexequível.
Muitos acreditam que a felicidade
resulta da ausência de sofrimentos, e que feliz é quem não tem problemas. Você
pensa assim? Pois então desista! Só os mortos não têm problemas. A vida machuca
a todos de algum modo: perdas, mágoas, fracassos, competições, julgamentos etc.
Ausência de dor não é uma condição de felicidade. Feliz não é quem nunca levou
um tombo, mas provavelmente aquele que conseguiu levantar-se de todas as quedas
e prosseguir com boa imagem de si mesmo. Acredito até que, depois disso, ele
seja bem mais feliz do que antes.
Outra sugestão para o ano novo
feliz é não ficar se perguntando: "Eu sou feliz?". Em vez disso, mantenha-se
ocupado – na loja, no escritório, na cozinha, no fábrica, na sinagoga, na igreja
ou como voluntário em um hospital. Faça coisas úteis.
Há estudos científicos que
demonstram ser a felicidade um produto da auto realização. É um estado de
espírito que resulta da percepção do valor próprio. Observe e você descobrirá
que ninguém tem visão mais positiva de si próprio do que aquele que realizou
algo com muito esforço. Experimente dedicar-se, de modo inteiramente focado, a
uma tarefa importante, do começo ao fim. Após constatar que o seu esforço deu
resultado, você terá maior respeito por si e uma sensação inigualável. Isto é
felicidade.
Alice Herz Somer é a sobrevivente
mais idosa do Holocausto Judaico perpetrado pelos nazista. Ela tem 109 anos e é
considerada a mais velha pianista do mundo. Ela ainda interpreta clássicos ao
piano, com preferência declarada por Bach. Alice confessa ser uma pessoa feliz.
Atribui sua sobrevivência ao horror dos campos à alegria com que viveu cada
instante, antes e depois daquele inferno. “A vida é linda. Cada dia é
maravilhoso!”, ela confessa em um breve filme facilmente encontrado no Youtube.
“Eu sou repleta de alegria. Por toda a vida eu estive sempre rindo. As pessoas
não riem. Se existe algum segredo em ter vida longa, este segredo é ser alegre”.
Ser alegre, ela diz. Alegria é alegria, não felicidade. Alegria é uma opção.
Felicidade é resultado!
Pessoas verdadeiramente felizes
não estão preocupados em ser felizes. Mas têm um propósito. E elas o cumprem com
amor, esforço e alegria. Por estas atitudes, abrem a porta para a felicidade.
E ela entra de mansinho para ficar.
Quando chega o Rosh Hashaná, Ano
Novo Judaico, nós não dizemos "Feliz Ano Novo" uns aos outros. A frase é “Shaná
Tová”, que significa “Um Bom Ano”. A diferença é sutil, porém significativa, bem
mais simples e alcançável.
Meu desejo a você e a todos os
seus é que o próximo ano seja bom. E doce, também. Que a felicidade seja
construída como resultado do esforço de viver com valor, com significado e
doação. E que você e eu consigamos contaminar muitos indivíduos nesta reação em
cadeia de comportamento e fé.
Em vez de pedir a Deus uma vida
feliz, tomemos a decisão de tornar a nossa um benefício para as pessoas, com
alegria. Comecemos o ano conscientes de que viver vale a pena. E façamos isso
todos os dias.
“Um Bom Ano Novo
pra você!!!”